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"A ideia do nome, "Psicologia Acessível", se deu pela intenção de contribuir para que a Psicologia e a Psicoterapia sejam cada vez mais integradas ao nosso cotidiano, e vistas como parte de um processo essencial para a qualidade de vida e o bem estar, assim como são outras áreas da saúde. O espaço é destinado para a divulgação de informações que possam auxiliar no conhecimento acerca das práticas psicológicas, atuação dos psicólogos e de como a Psicologia pode contribuir como instrumento de promoção de saúde e de qualidade de vida." Psicóloga responsável: Ane Caroline G. Janiro (CRP: 06/119556)

Não quero assim contar o tempo


Por: Francisca Daiane

Ele só desejava férias do trabalho. O cansaço pedia isso, a nova rotina de vida pedia isso. A esposa grávida em casa, sem contar que acabara de sofrer uma brusca queda, felizmente sem danos ao bebê. Os problemas de saúde dela já eram notificados vez ou outra, e agora parecia que as próprias condições de vida optaram por se juntar e tornar-se um grande conflito.

O trabalho dele exigia nada menos que uma grande capacidade de concentração, de inteligência, de se fazer presente. E ele só desejava férias. Férias de um trabalho que não atendia suas expectativas. Férias de um trabalho que o obrigava a fazer mais que sua função. Férias de uma vida dedicada ao outro, justo aquele outro que nunca reconhecia seu trabalho, porque estes outros também andavam perturbados, cabisbaixos, angustiados. Parecia o fim. Todo o tempo era contado, segundos a segundos.

O desejo de se tornar pai era visível, assim como de ser um esposo presente, mas o trabalho lhe sugava e lhe tirava o anseio de ser o estimado funcionário. Havia tantos nós em sua vida que cenas de desespero o acompanhavam. Terceiros diagnosticaram exagero, outros extremismos, fortes julgamentos e ninguém se perguntou: “Como o ajudar?”. Um chefe que só enxergou capacidades intelectuais e produtividade, esqueceu-se que o rendimento poderia vir, sobretudo, de um bom estado emocional. Não se atentou, perdeu o funcionário para um ambiente hospitalar, para uma agitada sala de espera, para “uns caras que tratam o psicológico”. Porque essa era sua necessidade, antes não reconhecida, mas existente.

Tentou se curar, mas precisava voltar, ainda não tinhas suas férias e o chefe cobrava sua presença.

A esposa cobrava sua presença.

O filho que nem nascera cobrava sua presença.

E ele melindrosamente se entregou novamente à vida ou ao que chamam de vida, foi ser corajoso, porque não tinha muitas saídas além de continuar, o que significaria manter-se nas suas reais pressões, correrias e instantes angustiantes, isso com o tempo sendo contado e com ele o contando, segundos a segundos.

E o caso dele não era o único. Até os terceiros que um dia julgaram, um dia também sofreram abalos emocionais, pediram um tempo, uma saída, uma licença, mas as férias ainda estavam longe. O trabalho ganhou naquele espaço forma mecânica, como que exercido por robôs. Talvez fossem estes justamente isto: seres enxergados sem uma estrutura psíquica. Não poderei imaginar que em tempos vindouros prevalecerão apenas resultados satisfatórios, pois um dia a tal vida pode cobrar contas mais caras e o preço será a não visualização do ser humano como alguém que precisa ser olhado e cuidado em sua inteireza.

Mas afinal, o que fazer? Pois o filho nasce, a esposa espera… A tal vida é ciclo, amigo. É ida. São voltas.

Imagem capa: Pinterest

Francisca Daiane

Acadêmica, 8º período de Psicologia na
Faculdade Panamericana de Ji-Paraná
Contato:
daianesilvapsico@gmail.com

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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