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Alcoolismo: desconstruindo mitos


Por: Psicóloga Ane Caroline Janiro

O Brasil é um país que consome altos índices de bebida alcoólica e quem evidencia isso é um estudo da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), lançado em agosto de 2015: o consumo de álcool per capta (APC), que é a divisão da quantidade de álcool vendida em um determinado país pelo tamanho de sua população de maiores de 15 anos, mostra que no Brasil a taxa entre os homens é de 13,6 (7º lugar no hanking mundial) e 4,2 entre as mulheres.

Ainda há certo tabu ao se falar de alcoolismo, especialmente entre jovens, que estão acostumados com a presença das bebidas alcoólicas em seu cotidiano e encaram o consumo como algo inofensivo e o risco da dependência como sendo distante de suas realidades. Assim, neste texto vamos abordar alguns mitos que impedem uma autoanálise correta das pessoas sobre sua relação com a bebida.

O primeiro mito que vamos desconstruir é de que o alcoólatra é aquela pessoa que bebe o tempo todo ou vive caindo pelas calçadas. Hoje, como bem sabemos, vivemos em uma cultura onde acreditamos que um evento social só é divertido se nele houver bebidas alcoólicas. Passamos aos mais jovens a ideia de que o álcool faz parte da socialização, é fator de aceitação em grupos (que muitas vezes taxam de chatos aqueles que não bebem) e também usamos o álcool como aliado para “perder a timidez”, “ter histórias para contar”, “competir com amigos para ver quem bebe mais”, e por aí vai. E, embarcando nessa “pressão” que vem da sociedade e até mesmo da própria família, muitas pessoas se tornam dependentes do álcool.

É provável que muitas pessoas sejam dependentes e sofram com várias consequências físicas e sociais mas, por falta de informação, vergonha ou preconceito, hesitem em buscar apoio. Frisando novamente, não é apenas aquela pessoa que bebe o tempo todo que pode ser considerada alcoólatra. Muitos sinais considerados “comuns” em nosso meio social podem ser indicativos de alcoolismo, como aquela pessoa que tem “apagões” (amnésia temporária) recorrentes por conta do excesso de bebida, hospitalizações frequentes após os famosos “porres”, episódios rotineiros de vexames ou de consequências físicas da ingestão de álcool, entre outros.

Alguns pontos devem ser considerados para se analisar a sua relação com a bebida alcoólica e identificar sinais de que existe dependência:

  • Já tentou parar de beber por uma semana (ou mais) sem sucesso?
  • Fica irritado quando alguém questiona sobre o seu consumo de álcool ou o tenta fazer parar?
  • Já tentou controlar a quantidade de álcool ingerida substituindo uma bebida por outra?
  • Já consumiu bebida ou sentiu necessidade de beber bebida alcoólica pela manhã nos últimos meses?
  • Sente inveja de pessoas que conseguem controlar o consumo de bebidas alcoólicas sem criar problemas?
  • Percebe que o problema com as bebidas vem se agravando com o passar do tempo?
  • A bebida alcoólica já criou problemas no seu lar?
  • Tenta conseguir doses extras em festas ou reuniões sociais onde as bebidas são ilimitadas?
  • Apesar de confirmar a maioria das perguntas acima e outros fatores, continua afirmando que consegue parar quando quiser?
  • Faltou ao serviço durante os últimos meses por causa das bebidas?
  • Já sofreu apagões por decorrência do consumo do álcool?
  • Já pensou que poderia aproveitar muito mais a vida sem consumir álcool?

Estas questões acima podem ajudar a repensar a influência do álcool em sua vida e a necessidade de buscar apoio, entretanto, não substituem uma avaliação profissional.

Outro mito que vamos desconstruir é de que o Alcoolismo é uma escolha. Muitas pessoas acreditam que o alcoólatra não consegue parar de beber por falta de vontade ou mesmo que promete muitas vezes que irá parar de beber e não consegue porque não tem determinação ou porque simplesmente não quer que isso aconteça realmente. O Alcoolismo é uma doença crônica, séria e precisa de cuidados médicos e psicológicos.

O CID-10 (Classificação Internacional de Doenças) apresenta uma lista de sintomas e recomenda que a ocorrência de pelo menos três deles podem indicar a Dependência. São eles:

  • Desejo intenso ou compulsão para ingerir bebidas alcoólicas.
  • Tolerância: necessidade de doses crescentes de álcool para atingir o mesmo efeito obtido com doses anteriormente inferiores ou efeito cada vez menor com uma mesma dose da substância;
  • Abstinência: síndrome típica e de duração limitada que ocorre quando o uso do álcool é interrompido ou reduzido drasticamente.
  • Aumento do tempo empregado em conseguir, consumir ou recuperar-se dos efeitos da substância; abandono progressivo de outros prazeres ou interesses devido ao consumo.
  • Desejo de reduzir ou controlar o consumo do álcool com repetidos insucessos também são sintomas do alcoolismo.
  • Persistência no consumo de álcool mesmo em situações em que o consumo é contra-indicado ou apesar de provas evidentes de prejuízos, tais como, lesões hepáticas causadas pelo consumo excessivo de álcool, humor deprimido ou perturbação das funções cognitivas relacionada ao consumo do álcool.

Mais um mito que aqui vamos a bordar é de que o álcool é o único causador do alcoolismo. O que se sabe hoje é que a dependência do álcool é uma soma de fatores: ambientais, psicológicos, genéticos e, claro, também o consumo de bebida alcoólica.

O mais importante é que cada pessoa tenha clareza de sua relação com o álcool e que o consumo de bebidas alcoólicas possa ser feito de forma consciente, uma escolha segura e não influenciada pelo ambiente e que, ao perceber sinais de que algo não vai bem, procurar apoio médico e psicológico o quanto antes. É essencial não esperar que a situação se grave para iniciar um tratamento. Lembrando que o alcoolismo não tem cura, apenas controle, pois se trata de uma doença crônica. O tratamento adequado irá ajudar a pessoa a ter uma boa qualidade de vida, lidar com a dependência e a entender que o álcool não é um elemento necessário em sua vida.

Referências:
ONU Brasil
CID-10 (Classificação Internacional de Doenças)
Alcoolismo.com.br

Imagem: Pinterest


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Sobre a autora deste blog:

Ane Caroline Janiro – Psicóloga clínica, idealizadora e editora do Psicologia Acessível.
CRP: 06/119556

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