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Crônica de desespero


Por: Cris da Rocha

Chego ao cinema animada para assistir a um filme que aguardava fazia um tempinho, já estava quase saindo de cartaz. Um desenho lindo que minha filha havia assistido e me indicou com muito entusiasmo. Sentei na poltrona e fiquei ali sozinha, aguardando.

De repente entra uma família: pai, mãe e duas crianças. Dois menino de aproximadamente 2 e 5 anos. O pai se sentou perto da criança de 5 anos e o menorzinho, ficou com a mãe no colo.

O filme começou e começou também uma luta de: “Mãe, não quero ficar aqui”, com choro e reclamações, parecia dizer o pequeno menino.

A mãe fazia de tudo para consolar a criança e aquietá- la para que todos pudessem ver o filme, inclusive eu que estava sentada ao lado da família que resolveu ir ao cinema – mas não devem ter visto a classificação indicativa. Porém, eles queriam sair em família. Mesmo se tornando um transtorno para as pessoas por ali.

A cada vez que a criança chorava e se mexia, fazendo suas reclamações, a mãe tentava a todo custo acalmá-la. O pai estava lá, sentado com o menino maiorzinho, que por sinal estava mais calmo e assistia ao filme.

Eu, particularmente, passei por vários momentos neste episódio. Tive raiva da mãe, do pai e até do garotinho menor. Sou humana. Fiquei indignada pensando que aquela mãe poderia ser um pouco mais assertiva e dar uma saída com o garotinho que estava entojado de ficar ali dentro. Do pai que nada fazia e que em determinado momento foi lá fora encher o pote dele de pipoca novamente. E ao menino de 5 que a todo momento perguntava à mãe em voz alta – o que é normal em crianças nesta idade -, sobre os personagens do filme. Conversava como se estivesse na rua, em casa. Eu estava ao lado disso tudo. Ali quietinha tendo os mais variados sentimentos. Quase me ofereci para ir lá fora com a criança menor.

Teve um momento que a criança já estava inconsolável e começou a chorar muito alto do meu lado. Não aguentei. Dei uma olhada para o lado. Afinal, estávamos quase que formando um grupo que vai junto ao cinema. Estava participando indiretamente de tudo ali.

A mulher em momento algum solicitou ao marido e ele nada fazia pra ajudar a sua esposa. Mesmo no escurinho do cinema dava pra perceber um desespero no ar. Um marido tranquilo, comendo pipoca e a desgraça rolando.

Chegou uma hora em que a mulher sacudiu a criança e começou a explicar o filme, a oferecer coisas de comer, caso ela ficasse quietinha. Não aguentei e olhei de novo para lado. Estava incomodada.

Eu ficava tentando o tempo todo focar no filme. Mas era quase impossível. Pensei em mudar de lugar, mas era uma sessão lotada com lugares marcados. Estava presa a uma história de pessoas que nunca vi.

Foi quando algo aconteceu. A mãe, na ânsia de acalmar seu bebê, faz com que ele tenha um movimento brusco e joga todo restante dos 700ml de refrigerante em cima da minha roupa. Neste momento senti pena da mãe. Ela se desculpou toda sem graça e eu pensei: “Gente, aquele homem era real? Ele existia mesmo? Será que eles combinaram de cada um cuidar de uma criança e pronto? Dane-se o que acontecer com a que você se responsabilizou? Ou eu preciso pedir ao mundo pra parar, para eu descer?”

Vejo muitas famílias passeando juntas hoje. Mas percebo que as pessoas em geral não se preparam para estes passeios e com isso nem eles nem ninguém se diverte.

Quando se vai a um cinema é importante saber do que fala o filme, se ele será interessante para uma criança. Há crianças pequenas que conseguem assistir até uma hora e meia de filme, desenho. Outras tem horror a ficar em lugares fechados, no escuro, com aquele som alto, vendo algo que não entendem nada. Isso deve ser angustiante para uma criança que não suporta o ambiente. É importante perceber no convívio com a criança como ela se sente em certos ambientes. Se o filme tem a ver com seus gostos, por exemplo.

É lindo que a família esteja junta, mas é lindo fazer programas que a criança sinta prazer em estar. Se o filme x será interessante pra criança com mais idade, então porque não a família se dividir e atender a cada um diferentemente? Ou, arranje alguém pra ficar com suas crianças e vá assistir ao filme de adulto.

Outro dia estava no cinema com meu marido e tinha um bebê recém nascido com os pais que estavam assistindo a um filme super violento, barulhento, cheio de efeitos especiais. O bebê danou a chorar, parecia até choro de fome e de dor. Mas acredito que era choro de incômodo. Ali não parecia ser um local para um bebê estar. Um bebezinho de mantinha, todo cheio de flu flu. Mas no ambiente nada propício.

O que precisa ser repensado é: que tipo de divertimento eu estou tendo? E as minhas crianças?

Há de se fazer essa pergunta. Não adianta misturar programas de crianças com adultos, alguém vai ficar cansado, estressado ou vice e versa.

Pra tudo é necessário organização, planejamento. Pra que em se tratando de diversão, não vire um filme de terror.

Já ouvi mães dizendo que não saem sem os filhos. Que não fazem programas infantis sem o marido. Eu fico assustada com tamanha dependência. Nós mulheres amamos nossas crias, gostamos de estar com a nossa família, de curtir nossos rebentos. Mas ser dependentes, não conseguir olhar pra si, sair consigo mesmo. Ou fazer um programa entre casal sem pensar nos filhos que ficaram com a vovó, a vizinha confiável, a babá, é algo que precisa ser refletido.

A vida vai passar, os filhos irão crescer, eles irão embora seguir seus caminhos, o casamento pode não durar a vida toda. E nós, mulheres, como ficamos diante de tal situação? Deprimidas? Chorando as pitangas como dizia a avó do meu pai? Ou nos sentindo abandonadas por todos?

É hora de repensarmos o que estamos fazendo com a nossa vida em detrimento da vida e da história de todos que estão ao nosso lado. As pessoas que estão conosco, nossos filhos, maridos, parentes em que nível for, estão vivendo suas vidas…

É importante participarmos da vida de quem amamos. Mas é importante termos a nossa vida. Nossos momentos, realização dos nossos desejos e sonhos.

O espaço, dá pra criarmos. Dá pra sermos quem quisermos ser, dentro das possibilidades que nos cabem. Não somos insubstituíveis. Não somos responsáveis por todos. Amamos. Queremos participar da vida destas pessoas. Mas que tal começarmos pela nossa vida de Mulher em primeiro lugar?

Imagem capa: Pinterest

Colunista:

Ana Cristina Vieira de Souza
(Cris da Rocha)

São Gonçalo – RJ
Professora d0 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental;
Formada desde 2007 em Pedagogia;
Especialização em Educação: Orientação Educacional, Supervisão e Administração Escolar, 2008;
Já atuou como Orientadora Educacional na rede pública de Ensino do Município de Itaboraí do 1º ao 9º ano;
Trabalha com crianças e adolescentes no Projeto Sala de Leitura, onde atua como professora de Literatura, estimulando crianças e adolescentes ao desejo e hábito de ler.
Atualmente é estudante do curso de Psicologia nas Faculdades Integradas – FAMATH, em Niterói.
Contato: prof-anacris@hotmail.com

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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