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O combate ao preconceito e a luta pela qualidade dos serviços de Saúde Emocional no Brasil e no Mundo


Por: Danilo Ciconi de Oliveira

PSICOFOBIA é um nome moderno para um velho problema: o preconceito e a aversão às pessoas que apresentam algum transtorno de saúde emocional.

Ao longo dos séculos, as pessoas acometidas por algum transtorno viviam à margem da sociedade. Os sintomas eram atribuídos, durante séculos, à ação de bruxas ou de demônios. Com o desenvolvimento das Ciências Psi – Psiquiatria, Psicologia, Neurociência etc. – houve uma mudança na forma de se tratar os sintomas. Estes não mais eram vistos como fruto de uma influência maligna espiritual, mas sim, a partir de uma perspectiva fisiológica.

Ainda assim, indiscriminadamente era comum que as pessoas portadoras de transtornos de saúde emocional fossem retiradas da sociedade e asiladas em instituições psiquiátricas – os chamados “manicômios”. Por muito tempo, o tratamento oferecido era extremamente rudimentar e a prescrição era indiscriminada. Os manicômios serviam para empreender uma espécie de “profilaxia social”, ou seja, separar e guardar, entre muros, aqueles que eram considerados “desajustados”. Resquícios dessa perspectiva higienista, infelizmente, ainda permanecem na atualidade no discurso e nas práticas de diversos segmentos da sociedade.

Nas últimas décadas, o Movimento Antimanicomial tem lutado contra a institucionalização. As políticas públicas de saúde mental priorizam os tratamentos ambulatoriais, oferecidos, por exemplo, nos Centros de Atenção Psicossocial – CAPS e nos Hospitais-Dia. Quem tem menor comprometimento e, por consequência, mais autonomia, pode permanecer inserido na sociedade, na sua família, e, ainda assim, receber tratamento adequado. As instituições de internação atuais evoluíram tecnicamente e, sobretudo, na qualidade do cuidado humano oferecido. O dia 18 de maio é a data símbolo da luta antimanicomial no Brasil e no mundo.

A luta, no entanto, continua. E é por isso que precisamos conversar sobre o assunto…

Nós precisamos refinar o nosso olhar acerca das questões de saúde mental, cada vez mais presentes e frequentes em nosso dia a dia.

Ainda há muito preconceito, muita discriminação. E a única forma de combater velhos estereótipos é através da informação.

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(1) O transtorno de saúde emocional é uma doença.

Ninguém escolhe ficar doente. Os transtornos de saúde emocional são resultado da interação de uma série de fatores: genéticos, biológicos, nutricionais, familiares, pessoais… Ninguém tem controle sobre todas as contingências envolvidas na produção de um transtorno psiquiátrico.

(2) A pessoa não escolhe sofrer ou parar de sofrer.

Não é “frescura”, não é covardia, não é “para chamar a atenção”. A pessoa não está doente porque quer. Ninguém ataca uma pessoa ou a manda parar de espirrar quando está com gripe. Igualmente, não adianta atacar ou mandar uma pessoa com depressão parar de sofrer ou de sentir-se triste. Nossos hábitos podem melhorar a qualidade da nossa vida emocional (dimensão orgânica), mas estar ou não bem não é exclusivamente ato da vontade ou da racionalidade.

(3) Todos nós estamos susceptíveis.

Como eu já disse, o transtorno de saúde emocional é fruto da interação de uma série de fatores biopsicossociais, sobre os quais não temos total ciência e controle. Assim, qualquer um de nós está susceptível.

O transtorno mental não escolhe idade, sexo, cor de pele, religião.

Os transtornos de saúde emocional atingem pessoas. Se você é uma pessoa, você está aberto a alterações nas suas emoções.

É óbvio que podemos prevenir, assim como podemos prevenir a gripe. Alimentação saudável, atividade física regular, reconhecimento e manejo das próprias emoções… A prevenção é possível. A assepsia, não.

Várias personalidades do meio artístico e social já narraram suas experiências com os transtornos de saúde emocional. A atriz Cássia Kis Magro participou de campanha de conscientização, promovida pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), na qual contou acerca da sua vivência com a bipolaridade e a bulimia. No universo religioso, o padre Marcelo Rossi tem pregado sobre sua experiência pessoal com a depressão e como, após esta, ele próprio superou alguns preconceitos e falsas concepções acerca desse transtorno. Vários famosos e personalidades públicas têm divulgado suas histórias, em prol da informação e da conscientização.

Eu sei que o cuidado e a atenção às pessoas com transtornos de saúde emocional é intensivo e, portanto, difícil. Mas isso não legitima agressões e preconceitos. E estes não colaboram em nada com a melhora do quadro psiquiátrico.

Além de que, se você olhar bem, “de perto, ninguém é normal”…

Colunista:

Danilo Ciconi de Oliveira
CRP 06/123683

Psicólogo (USP), graduando em Pedagogia – Licenciatura (Claretiano) e especialista em Psicopedagogia (Uninter).
Sua trajetória profissional se destaca especialmente pela atuação junto a adolescentes e jovens. Como educador, dedicou-se a intervenções socioeducativas com adolescentes judicializados e, atualmente, à formação/treinamento de jovens em contextos de aprendizagem corporativa, assim como à docência no ensino superior.
Sua formação complementar é marcada por atividades formativas relativas a programas de prevenção e intervenção psicossocial na juventude e a questões atinentes ao processo ensino-aprendizagem, particularmente no tocante às novas tecnologias de ensino e à contextos organizacionais de educação. 
Atua na cidade de São João da Boa Vista – SP.
Contato:
Blog: http://desenvolverpsi.blogspot.com.br/

E-mail: danilociconipsi@gmail.com
Linked in: https://br.linkedin.com/in/danilo-ciconi-de-oliveira-256090a4

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