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Depressão: a ferida invisível


Por: Maicy Rodrigues Araújo

“E a pior coisa nisso tudo, é que na depressão ninguém consegue ver que você está doente. Parece que tem uma ferida invisível dentro de mim, sabe? Ela sangra, machuca, dói de todas as formas, mas ninguém tá vendo. Porque você vai vivendo, né? Às vezes eu preferia ter uma doença que desse mais na vista dos outros, porque nem acreditar em mim, meus parentes acreditam.”

Enquanto fala sobre suas dores, C. chora. A ferida invisível aos outros é completamente visível pra mim. É uma fratura exposta, eu vejo e consigo sentir as agulhas perfurando o seu corpo, enfraquecendo-o e sugando suas energias.

C. costumava ser uma pessoa divertida. Adorava contar piadas, ria à toa. Adulta, casada e mãe de dois filhos lindos e saudáveis. Dedicava a vida à sua família e trabalhava na pequena venda que montou em frente a sua casa.

Sair aos finais de semana era quase sagrado. “Tinha que levar as crianças pra rua né? Eles gostam, e eu também gostava. Íamos ao cinema e comíamos pipoca.”

Um dia, ao acordar, C. não sentiu vontade de levantar. Não conseguia explicar ao marido o que sentia, só queria se isolar. Não aturava mais as janelas abertas, a luz do sol incomodava sua vista. As risadas foram se tornando cada vez mais raras, os passeios com as crianças, idem.

O marido dizia que ela estava ficando louca, afinal, que doença é essa que não sente nada? “Levanta da cama, deixa de preguiça.” Confusa com o que ela mesma sentia, pediu ajuda à irmã. Vinda de uma família simples e com poucas oportunidades para estudar, ela também não soube muito bem o que fazer. “Quem sabe ir para a igreja ajude?” As vizinhas começaram a comentar, e em pouco tempo toda a rua dizia que a esposa do Sr. K. havia enlouquecido.

Quanto mais chegava ao seu ouvido esse tipo de coisa, mais C. afundava. O choro constante e a falta de ânimo e energia chegaram ao extremo, e sem conseguir pensar em nada, teve certeza que a única coisa a fazer era a morte.

O marido a abandonara.

Em um momento raro de energia, vestiu-se e foi a emergência. Pediu ao médico que salvasse sua vida, pois tinha dois filhos pra criar. E esse médico a encaminhou até mim.

Ouvi sua história de vida e quisera eu poder, naquele exato momento, abraçar seu coração. Estava em minha frente uma guerreira, uma vitoriosa que havia enfrentado 3 meses de depressão profunda sem apoio médico e terapêutico.

A partir do nosso contato, começamos a costurar sua enorme colcha de retalhos. Cada pedacinho de sua história de vida e de sua forma de ver o mundo a levaram àquele exato momento. E a minha crença absurda em sua cura, a escuta, o olhar e as palavras que digo já fazem efeito sobre aquele rosto, ora tão apático. Eu consigo ver que dali sairá um sorriso. Com a experiência e a esperança de quem muitas vezes, já flutuou sobre o cinza e conseguiu ver colorido de novo.

*Busque ajuda profissional se você se identificou com a história e está com dificuldades para lidar sozinho(a) com o que sente.

Imagem capa: Pexels

Colunista:

Maicy Rodrigues Araújo
CRP 10/03113

Maicy Rodrigues Araújo é Psicóloga, formada pela UNAMA (Universidade da Amazônia). É especialista em Desenvolvimento Infantil pela UEPA (Universidade do Estado do Pará), possui MBA em Gestão de Pessoas pela FACI (Faculdade Ideal) e cursou o Programa de Educação Continuada em Psicopedagogia (ABED). É Aprimoranda em Psicologia Clínica com ênfase na abordagem Gestáltica pelo GEGT (Grupo de Estudos Gestálticos).
Atualmente, trabalha como Psicóloga Clínica e Orientadora Profissional em consultório particular e na modalidade online.
Escreve e administra o instagram @_tododiapsicologia_, com a idéia de levar Psicologia de fácil acesso ao dia a dia das pessoas. Idealizadora do programa OPT (Orientação Profissional para todos), dando palestras gratuitas em diversas escolas no estado do Pará sobre a escolha consciente da profissão.
É de Belém/Pará.

Contato:
(91) 98839-7900 
maicyrodrigues@gmail.com

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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