Arquivo da categoria: Convivência/Sociedade

Pensando o outro


Por: Anna Paula Minguta Serafin

Passamos a vida inteira enquanto crianças, adolescentes, jovens, e alguns quando mães e pais, buscando eliminar os sintomas.

Vamos seguir uma observação a indivíduos em estado febril. Quando alguém está neste estado, denominado febril, seguimos sempre algumas orientações, que vindas desde antiguidade, permeiam nosso tempo. Um banho frio, batata gelada na testa, muita água, meia nos pés, agasalhar o máximo, evitar agasalhar, fechar todas as portas e janelas para não entrar corrente de vento, abrir a casa para o ar circular… em meio a tantas coisas e divergências, que uma coisa temos um comum: queremos acabar com a febre. Esse calor ameaçador não pode permanecer. Se demorar, o sujeito terá convulsões e até mesmo alucinações. Surge desse princípio um objetivo: acabar com a febre. Parece-nos um cuidado lógico e pertinente, se não nos esquecermos de que esta febre é o corpo falando, respondendo a alguma coisa que o incomoda. Seria correto cortarmos a febre sem sabermos de onde ela vem? Ou porque ela chegou? Olhar para este corpo além da febre e perguntar o que ele quer dizer com isso?

Alguém já experimentou perguntar ao corpo se ele tem algo a dizer? Sem medo de obter resposta, afinal dizemos o tempo todo que “o corpo fala”, mas como não paramos para ouvir, a febre já não é mais uma fala do corpo, e sim um grito de socorro. Algo do tipo: Olhem para mim, vou explodir! E cada um de nós prontamente cuida de esfriar, de calar, de mandar o corpo calar. A humanidade está febril, e passamos muito ou todo tempo buscando modos de “cortar a febre”. De esfriar os ânimos, de calar as pessoas. De amenizar antes que venham os delírios e alucinações. Seriam estados febris os choros “sem motivo”, as angústias, o silêncio, o isolamento, andar pela rua ou em casa falando sozinho? Os gritos considerados fora de hora, os pesadelos, as inconstâncias e tantas outras reações observadas no dia a dia? Somos crianças crescidas que vivem pelas ruas observadas por curadores de febres, que sequer sabem o que estão fazendo com corpos que querem falar. Caminhando pelas ruas dos bairros, da cidade, não importa a hora, se dia ou noite, são intensos os movimentos de pessoas que estão cansadas de paliativos, querem simplesmente deixar o corpo queimar, para a alucinação vir à tona e o delírio (que estará muito mais perto da realidade) poder ser exposto, sem algemas, sem medicamento, sem isolamento, sem camisa de força, mas com as portas abertas, com o vento entrando e com os gritos saindo pelos poros se necessário.

Não haverá preocupação de vírus “pegarem” os vizinhos, já estão todos contaminados, todos querem de algum modo chamar a atenção, mas não querem esfriar a febre, querem ser examinados, cuidados, observados, agasalhados por um afeto e refrescados por um motivo para prosseguir. A bactéria da indiferença, “do melhor remédio é ficar calado”, “fingir que não vê”, ou “fecha a casa e fica quietinho que passa”, tudo isso e muito mais, tem dado vazão para o aumento de doentes perdidos pelo caminho. E os observadores, estes adoecidos por não terem ações, por não conseguirem se movimentar, por medo de se contaminar, já estando contaminados. A empatia surge como um bom remédio e pode-se ir além de estar no lugar do outro, podemos ainda ir até onde este outro está. E quem sabe compreende-lo.

Imagem capa: Stocksnap.io

Anna Paula Minguta Serafin

Faculdade Européia de Vitoria – cursando 8º período Psicologia
Cariacica/ES
Contato:

annapaulapauloserafin@hotmail.com

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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