Arquivo da categoria: Dependência Afetiva

Dependência emocional: o amor que aprisiona


Por: Psicóloga Ane Caroline Janiro

“Ela é bonita, inteligente, mas não consegue ser feliz sozinha. Está em um relacionamento destrutivo, faz de tudo pelo parceiro, se anula, se esgota por ele, mendiga atos de amor por parte dele. Não acredita em suas próprias capacidades, precisa da constante aprovação do companheiro e das outras pessoas, é insegura, sente ciúmes excessivamente, tem medo de ser abandonada e por isso se molda conforme a vontade alheia, se esquecendo completamente daquilo que ela realmente é. Quando seu relacionamento chega ao fim, tudo parece ser uma tempestade horrível! Passa pela fase do sofrimento quase insuportável, decide que “agora tudo será diferente” e por não acreditar em seu próprio valor, logo estará de novo envolvida com promessas de amor vagas, carícias e demonstrações de afeto não muito duradouras. Algo que, agora sim, parece ser a chave de sua felicidade, mas na verdade está em uma nova prisão. ”

Essa é a descrição de um caso real. Nele foi citado o exemplo de uma mulher que vivencia a dependência emocional, mas é preciso deixar claro que isso pode ocorrer também com homens e em outros tipos de relação, como de amizade por exemplo.

Também é importante deixar claro que nem toda crise de ciúmes ou dificuldade de relacionamento é um caso de dependência emocional, às vezes a situação é sinônimo de falta de maturidade na relação – o que poderemos falar em outro momento.

Mas o fato é que há uma grande diferença entre o amor saudável, aquele nos impulsiona para frente, que nos faz evoluir e respeita as nossas individualidades, daquele “amor” que nos aprisiona, que de forma alguma é considerado saudável (pelo contrário, é tóxico e destrutivo) e que nos torna “dependentes”.

Como no caso citado acima, um relacionamento baseado na dependência emocional é aquele que mina nossa autoestima, nos coloca para baixo, nos anula. Aquele onde uma pessoa esquece tanto de si mesma, que não toma mais nenhuma decisão sem que tenha a aprovação do outro, mesmo quando essa decisão está relacionada com seus gostos pessoais, com sua forma de se vestir, de cortar o cabelo. Tudo em busca de agradar ao outro e movido pelo medo de ser abandonado ou trocado.
Em alguns casos, o parceiro ou parceira “admira” essa dependência, pois de certa forma sente-se lisonjeado por ter alguém que faz tudo por ele, que demonstra “tamanho amor”. Mas o curso desta relação é o estágio em que este parceiro não se sente mais capaz de retribuir as necessidades de afeto exacerbadas, sente-se também aprisionado, sufocado pela necessidade de exclusividade do outro, vê sua privacidade invadida e sua liberdade desrespeitada e consequentemente a admiração inicial não existe mais. É uma relação fadada ao fracasso – mesmo que os dois nunca venham a se separar, porque um relacionamento fracassado nem sempre é aquele que chega ao fim, há casais que passam anos ou a vida toda sustentando uma relação pouco ou nada satisfatória.

Em outros casos, o parceiro até possui a consciência de que não supre as necessidades afetivas do outro, mas não faz questão de supri-las ou sequer se incomoda com isso. Pelo contrário, incentiva a dependência de tal forma que passa a controlar as escolhas do outro, as amizades, as relações familiares, a forma de se comportar. A outra pessoa, em plena dependência emocional então, se vê cada vez menos valorizada, com a autoestima em pedaços, mas acredita que sua vida não faz mais sentido sem o outro, que os (poucos) momentos de afeto que recebe são suficientes, que ela não tem capacidade de ser mais amada ou melhor tratada e que ela deve lutar cada vez mais para preservar a relação, por mais destrutiva que ela possa ser.

Mesmo que este relacionamento problemático se encerre pela decisão de um ou de ambos, a pessoa que sofre com a dependência emocional provavelmente logo irá se envolver em outras relações que seguem o mesmo padrão.

É possível perceber que esta pessoa frequentemente se coloca também na posição de vítima, transferindo a responsabilidade por sua infelicidade ao outro e, apesar de certas vezes demonstrar estar decidida a “ser feliz” independente de tudo e de todos, no fundo, ela mesma não acredita nesta sua capacidade (por isso está sempre em busca de preencher o vazio com outro relacionamento).

Muitas vezes é difícil se perceber ou admitir estar nesta situação, mas o reconhecimento é o primeiro passo para a mudança. Ainda assim, mesmo com a consciência do que ocorre, pode ser bem difícil lidar com isso sozinho e tomar atitudes efetivas a respeito. Um profissional, como o psicólogo, pode auxiliar muito no autoconhecimento e na identificação de estratégias para que a pessoa possa alterar o seu padrão de relacionamentos.

Este autoconhecimento é essencial para lidar com a dependência emocional, pois quando o indivíduo se conhece, ele entende as origens e causas desta dependência, compreende os motivos que o levam a agir de determinada forma, passa a se valorizar, a aceitar suas limitações e fazer melhor uso de suas capacidades. Aprende também a ter autocontrole, pois aprende a fazer suas próprias escolhas e a lidar com seus próprios sentimentos e emoções. Reconhece quais são as suas reais necessidades e aquilo que realmente o faz bem. Confia em si mesmo e aprende a não depositar a sua felicidade em outra pessoa. Assume a responsabilidade por suas escolhas e deixa de se culpar ou de culpar os outros.
Por isso é tão importante (tanto quanto tomar consciência da situação) buscar auxílio psicológico.

Há muitos aspectos que ainda podemos abordar acerca deste tema e com certeza falaremos novamente aqui no blog.


12009753_1145254608837345_2914420128489159683_n


Sobre a autora:

Ane Caroline Janiro – Psicóloga clínica, Fundadora e Administradora do Psicologia Acessível.
CRP: 06/119556



*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


Gostou deste conteúdo? Compartilhe nas redes sociais!
Cadastre-se também na opção “Seguir Psicologia Acessível”e receba os posts em seu e-mail!


PNG - ONLINE IMAGE EDITOR - Copia.png

Sobre o Psicologia Acessível (saiba mais aqui).