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Eu vi a cara da morte e ela estava viva


Por: Maicy Rodrigues Araújo

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, uma pessoa comete suicídio a cada 40 segundos.

No Brasil, estima-se que 10 milhões de pessoas sofram de depressão e em relação à população mundial, cerca de 20% dos depressivos tentam suicídio pelo menos uma vez, visando por fim ao sofrimento que os aflige.

Lembro de ter ouvido histórias de suicídio durante toda a vida, e sempre que se fala nesse tema (que ainda é um tabu), percebe-se o quão carregado de julgamento ele é. Ninguém consegue falar de suicídio sem dar uma opinião um tanto quanto irredutível sobre o que pensa sobre ele. Falar me parece muito fácil. Mas a verdade é que alguém que nunca teve um pensamento suicida pode falar com tanta propriedade.

Causa? Não existe UMA causa do suicídio. Existem várias. Concordo que as pessoas com transtornos psicológicos tem uma tendência maior. Mas todo ser humano sofre. Será que em algum momento, qualquer um de vocês que esteja lendo, já não pensou na morte como uma possibilidade, estando em sofrimento?

Estamos falando de uma história de sofrimento tão absurda, que a única possibilidade que a pessoa enxerga é a morte. Muitas pessoas que pensam em suicídio não querem de fato morrer, elas querem dar fim ao sofrimento.

Werlang e Botega (2004), afirmam que se pode definir o comportamento suicida como todo ato pelo qual um indivíduo causa lesão a si mesmo, qualquer que seja o grau de intenção letal e de conhecimento do verdadeiro motivo desse ato. Essa noção possibilita conceber o comportamento suicida ao longo de um continuum: a partir de pensamentos de autodestruição, passando por ameaças, gestos, tentativas de suicídio e, finalmente, suicídio.

Entender o suicídio é compreender que ele não é só a morte em si, ele é o pensar na morte. É quase como um flerte. “Hoje, meu dia foi tão ruim que eu penso que teria sido melhor não ter levantado da cama. Amanhã, o dia se repete. Ninguém repara ou parece se importar. Acho que eu não faria muita falta nesse mundo. Hoje eu desejei não ter acordado. Será que essa dor tão profunda vai acabar? Ou posso eu mesma dar fim dela?”

E assim, nessa “paquera mortal”, o indivíduo vai se aproximando cada vez mais da morte. Ele se encontra cristalizado, inflexível. Não consegue mais se ver de forma ampla como sujeito no mundo, o mundo pra ele virou a morte.

A escuridão sempre foi uma grande conhecida minha. Ao longo da minha adolescência e vida adulta, me via passando por períodos apáticos. Me esforçava pra fazer as pequenas coisas e tudo parecia muito difícil. Hoje consigo ter uma visão muito clara e consciente disso tudo por conta de anos de estudo e terapia.

Já ouvi muito a frase “quem quer se matar, vai e se mata”. Vocês também? Isso é bastante dito quando uma tentativa de suicídio dá errado.

Porque alguns pacientes dizem que querem se matar? Porque lá no fundo, eles querem dividir essa dor absurda que tem sido existir. E falar pra gente ou pra qualquer outra pessoa, é uma voz baixinha, sem muita energia lá dentro dele, que quer socorro. Ele quer ser salvo. E faz TODA diferença ter alguém. Se a pessoa fala em querer se matar, é porque ela está compartilhando… e ao falar, podemos juntos, dar um novo olhar. Por meio da relação terapêutica, tentar dar um novo sentido a esse ser humano.

Conheço história de pessoas que tinham aparentemente tudo e se mataram. Esse “tudo” que se fala é tão vazio. Dinheiro, carro, casa, emprego… de verdade verdadeira, esse tudo pra essas pessoas não era nada. Porque elas estavam em sofrimento emocional. E o fato de terem coisas materiais não as livrou do vazio existencial que tinham dentro de si. Não existe dor maior que a dor de existir.

Algumas pessoas acham que sabem o que é esse sentimento depressivo, essa apatia absurda que se transforma em dor… porque já se divorciaram, perderam um emprego ou passaram por uma relação difícil. A verdade é que nada disso é depressão. Essas situações geram sentimentos de tristeza, que podem ou não levar a depressão. Mas não se enganem. Depressão não é “tão” simples assim. Não é uma tristeza, não é um choro. É oca. É cansativa e insuportável, porque você, mais do que ninguém, sabe que aquele não é você. Eu já ouvi muito isso dos meus pacientes e claro, já falei também.

Você sabe que aquele não é o seu estado normal, você se sente chato, irritante, sem senso de humor e energia. E não adianta, as pessoas podem se esforçar o quanto quiserem, elas não vão conseguir te animar.

Como não pensar em dar fim a tudo isso?

Ampliar a awareness: dar-se conta de si. Eu acredito que os pacientes podem ressignificar suas vivências. Dar um novo olhar a elas. Eu creio piamente que podemos buscar novos ajustamentos criativos, que não irão apagar o sofrimento que já vivemos, mas com base neles e na experiências que eles nos trouxeram, vamos poder olhar a vida de outra forma.

Ampliar as compreensões e possibilidades faz parte do papel do Terapeuta.

Eu e o paciente estamos no mesmo nível existencial. A minha diferença é a teoria. Mas existe sim uma vivência disso que você pode estar passando e eu também, em algum momento, já vivi. Isso me faz sentir muito confiante no que diz respeito a compreender o sofrimento e desespero das pessoas. Porque eu já fui essa pessoa. E eu tenho essa vontade absurda de viver, de vencer todas as batalhas que a vida vai me apresentar. Eu dou muito mais valor à luz hoje, porque eu já vi a escuridão.

Eu tenho uma fé imensa nessa coisa chamada terapia porque ela já salvou a minha vida. E eu sei que posso salvar a vida de muitas pessoas também.

Referência:

Botega, N. J. & Werlang. B. G. Comportamento Suicida, Porto Alegre: Artmed, 2004

*O título do texto é da música “Boas Novas”, do Cazuza.

Imagem capa: Stocksnap.io

Maicy Rodrigues Araújo
CRP 10/03113

Maicy Rodrigues Araújo é Psicóloga, formada pela UNAMA (Universidade da Amazônia). É especialista em Desenvolvimento Infantil pela UEPA (Universidade do Estado do Pará), possui MBA em Gestão de Pessoas pela FACI (Faculdade Ideal) e cursou o Programa de Educação Continuada em Psicopedagogia (ABED). É Aprimoranda em Psicologia Clínica com ênfase na abordagem Gestáltica pelo GEGT (Grupo de Estudos Gestálticos).
Atualmente, trabalha como Psicóloga Clínica e Orientadora Profissional em consultório particular e na modalidade online.
Escreve e administra o instagram @_tododiapsicologia_, com a idéia de levar Psicologia de fácil acesso ao dia a dia das pessoas. Idealizadora do programa OPT (Orientação Profissional para todos), dando palestras gratuitas em diversas escolas no estado do Pará sobre a escolha consciente da profissão.
É de Belém/Pará.

Contato:
(91) 98839-7900 
maicyrodrigues@gmail.com

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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