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Que tal abrir mão do controle?


Por: Amanda Santos de Oliveira 

Está aí uma atividade difícil para qualquer um que tem essa mania de estar sempre no controle de tudo. Fica ainda pior quando realmente não é possível ter controle. Nesses momentos a ansiedade vai a mil e até o controlar a si mesmo fica mais difícil. Mas o que está por trás dessa necessidade de controlar tudo e todos à sua volta? Descobrir isso é primordial para poder soltar um pouco do controle da vida. Veja abaixo algumas razões usuais que fazem com que isso aconteça. Descobri-las pode ajudar você a descobrir as suas próprias razões para manter tal comportamento.

Perfeccionismo

Não há nada melhor para um perfeccionista do que fazer tudo sozinho não é mesmo? Segundo Oliveira et. al (2011)[1], o perfeccionismo vem sendo conceituado como uma tendência em estabelecer padrões excessivamente elevados, causados por uma rígida adesão a estes mesmo padrões e pelas auto avaliações extremamente críticas. Ainda, segundo os autores, o perfeccionismo é um traço de personalidade disfuncional e desadaptativo. Isso quer dizer que pode ser uma pedra no sapato dos seus comportamentos cotidianos e pode influenciar diretamente na sua qualidade de vida.

Por mais que hoje pareça ser mais aceitável ser uma pessoa perfeccionista, os autores destacam como a presença deste traço de personalidade por ser prejudicial. Segundo Oliveira et.al (2011), diversos estudos têm comprovado a influência do perfeccionismo em perturbações psicológicas, como por exemplo, a depressão, a insônia, ansiedade, comportamentos alimentares dentre outros. A ocorrência de tais transtornos em pessoas perfeccionistas pode fazer com que os sintomas se tornem agravados, o tratamento demorado e maior probabilidade de recaídas.

Então ter metas e correr atrás delas é perigoso? De forma alguma. Assim como apresenta Oliveira et.al (2011), o perfeccionista denominado normal ou adaptativo é definido como o indivíduo com objetivos elevados, mas que é capaz de estabelecer limites mais realistas para a sua performance, dessa forma, leva em conta suas forças e limitações, conseguindo ter prazer nos trabalhos que exigem mais esforços além de sentir-se livres para ser menos preciso quando o contexto permitir. Mas, existem também os perfeccionistas neuróticos, como denominam os autores. Neste caso, existe uma preocupação excessiva em cometer erros e uma incapacitante culpabilização do self, além de uma excessiva autocrítica e um sentimento insistente de frustração e certeza de que os padrões auto impostos não estão sendo alcançados.

Viu só a diferença? No comportamento saudável existem metas a serem alcançadas, mas também existe uma flexibilidade e até prazer nos trabalhos a serem cumpridos. Já no comportamento disfuncional, existe ansiedade, padrões extremamente altos, inflexibilidade e muita frustração.

Insegurança

Esse é outro monstro que assombra os que não querem largar o controle. Afinal de contas porque o erro pode ser tão temido? Geralmente o medo exagerado ao erro está ligado a algumas crenças irracionais construídas por essa pessoa. Segundo Matta et.al (2009)[2], as crenças irracionais são interpretações que o sujeito desenvolve sobre si, sobre outras pessoas e sobre o mundo em geral. No entanto, essas interpretações ou crenças podem ser ilógicas, ter pouca sustentação empírica e dificultam que o indivíduo alcance suas metas, por isso, são ditas como irracionais. Portanto, existe um raciocínio por trás dessa crença, mas um raciocínio errôneo.

Então será que aqueles pensamentos que te dizem “você não consegue”, “isso não é para você”, “se você errar não tem mais jeito” são realmente verdadeiros? Entenda que você construiu essas crenças de alguma forma, mas elas podem estar ligadas muito mais a concepção que você tem de si do que a fatos e circunstâncias reais. E é aí que você acaba se sabotando. Não estou dizendo que você não deva conhecer seus limites. Mas, é preciso conhecer os limites reais e não aqueles que você imaginou para você mesma.

Falta de confiança no outro

Mas, necessitar controlar o tempo todo é uma faca de dois gumes. Isso porque isso pode estar ligado tanto à sua insegurança quanto a insegurança que você tem nos outros. Esse medo do outro falhar ou certeza de que ele vai falhar é outra crença irracional. Talvez você até tenha construído essa crença em uma situação real, mas acaba mantendo essa certeza mesmo que o contexto já não seja mais o original.

Para esses casos que tal avaliar essa interpretação como quando falamos de insegurança contra nós mesmos? Será realmente que outra pessoa não tem a mesma capacidade que você para executar uma tarefa? E se você realmente acha que não, no que você está baseando sua opinião? Pense em fatos reais e situações que você pode realmente experienciar para tirar tão conclusão.

Experimente largar as rédeas!

Que tal experimentar? Claro, não estou dizendo para você largar o controle de tudo sem fazer uma avaliação prévia do ambiente e situação. Mas, que tal experimentar deixar o controle nas mãos de outras pessoas quando a situação te permitir? Provavelmente, você experimentará uma certa ansiedade nas primeiras vezes, mas isso se dá pela força de um hábito que pode estar aí já há muito tempo. Experimente, uma, duas vezes e veja as reais consequências de deixar outros controlarem algo para você.

Estar no controle de tudo é muito pesado! Isso porque provavelmente você assume responsabilidades que não são suas e vai enchendo sua mente e seu cotidiano de novas tarefas e compromissos. Para mudar isso tem um jeito: tente! A vida é cheia de novas possibilidades que a gente nem imagina, para conhecer novas formas de ser e de agir precisamos entrar em contato com elas. Tente, experimente, dê um passo, mude!

Referências:

[1] OLIVEIRA, Diana F.; CARMO, Cláudia; CRUZ, José Pestana; BRÁS, Marta. Perfeccionismo e representação vinculativa em jovens adultos. Psicologia: Reflexão e Crítica, 25 (3), 514-522. Universidade do Algarve, Faro, Portugal. 2011. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/prc/v25n3/v25n3a11&gt;. Acesso em 16 de fev. de 2017.

[2] MATTA, Adriana da; BIZARRO, Lisiane; REPPOLD, Caroline Tozzi. Crenças irracionais, ajustamento psicológico e satisfação de vida em estudantes universitários. PsicoUSF,  Itatiba ,  v. 14, n. 1, p. 71-81, abr.  2009 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-82712009000100008&lng=pt&nrm=iso&gt;. Acesso em  16  fev.  2017.

Imagem capa: Pinterest

Colunista:

Amanda Santos de Oliveira
CRP 04/43829

Psicóloga Graduada pela PUC Minas, atuante na área clínica em Belo Horizonte, oferecendo psicoterapia individual para adultos
Contatos:
psi.amandaoliveira@gmail.com
Facebook: facebook.com\psi.amandaoliveira
Instagram: @psicologabh

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