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“Amar” também pode ser sinal de abuso


Por: Alex Valério

“Quantas vezes sussurrei ‘Como vim parar aqui? Como virei essa mulher?’”¹

Essa é a pergunta que inicia a reflexão dessa semana. Pensei em escrever sobre relacionamentos, mas não queria redigir um texto meloso, enaltecendo a beleza do amor e, menos ainda, um texto frustrado, com palavras de um “solteirão” amargurado. Nós vamos falar de uma espécie de relação que tem se destacado e que, acreditem, causa uma série de efeitos colaterais em quem a vivencia.

Para começar, precisamos deixar uma coisa clara: uma relação abusiva não é caracterizada unicamente por agressões físicas, elas também podem ser emocionais, verbais e/ou sexuais. Outro aspecto que também merece ser esclarecido: o abuso não ocorre apenas do homem contra a mulher – as pesquisas apontam que esse é o tipo mais comum –, mas eles também podem ocorrer de mulheres contra homens, mulheres contra mulheres, homens contra homens e algumas outras tantas combinações que são possíveis para os dias de hoje.

Pessoas que são submetidas a relacionamentos como estes, tendem a sentir que precisam cuidar do parceiro, já que deixa-lo seria o mesmo que abandoná-lo. Também não é incomum a constante esperança que sussurra ao ouvido “ele(a) vai mudar, é só questão de tempo”. Normalmente achamos que quando a outra pessoa perceber o “tamanho” do nosso sentimento, terá condições de ser diferente. O triste é que as coisas não acontecem dessa maneira. Pouco a pouco, aquele que é abusado, vai se sentindo mais diminuído, culpado, controlado e – ouso dizer – vai perdendo a consciência de quem é e se deixa desconstruir, coexistindo na existência do outro.

Quando, numa relação, você começa a perceber que tem se anulado em detrimento do outro e que seu parceiro sempre te responsabiliza pelos problemas da relação, epa! Talvez seja hora de pensarmos um pouco sobre isso. Não é fácil se perceber numa relação abusiva, acabamos tão mergulhados na intensidade do relacionamento e dispostos a atender plenamente as necessidades do outro, que acabamos negligenciando algo muito importante: NÓS.

Há muitas formas de abuso e, de novo, é difícil percebê-lo e, ao perceber, é difícil se livrar dele. O abusador parece se tornar essencial e fundamental para que a vida continue fazendo sentido. O abusado sente vergonha, medo e acaba se isolando, sabe que se comentar o que passa com outras pessoas, acabará sofrendo com a avaliação negativa delas (sim, o mundo é cruel!). É desesperador! Algumas pessoas, nesta condição, sentem vontade de sair correndo sem nem olhar para trás, mas é como se a sola dos pés estivesse colada e fosse impossível dar qualquer passo em direção a saída.

Não é saudável se relacionar com alguém que te faz de piada na frente dos amigos, que discorda constantemente das suas opiniões e desconsidera suas ideias, sugestões e necessidades. Se você está com alguém que te faz sentir mal consigo e que quer controlar a maneira como você se comporta, sendo necessário que você peça permissão para sair só, isso não é amor, é abuso.

Peça ajuda!

¹ Por fim, mais do que escrever a respeito, recomendo a leitura do texto que me inspirou este assunto. Espero que o discurso alcance vocês, como me alcançou: “Eu costumava achar que era louca”, disponível no site Pragmatismo político.

Imagem capa: Pinterest

Também publicado em: Minuto Terapia

Colunista:

Alex Valério
CRP: 06/134435

Especializando em Terapia Comportamental pela 
Universidade de São Paulo. 
Psicólogo pela Universidade Nove de Julho.
Tem experiência com projetos que envolveram 
pesquisa básica em análise do comportamento 
(desamparo aprendido e comportamento supersticioso), 
ações sociais com o público LGBT e pesquisa quantitativa 
com familiares de mulheres que estavam encarceradas.
Realiza atendimento clínico de crianças, adolescentes e adultos. 
Escreve para o próprio blog e, também, para o Educa2.
Atende em São Paulo (Região Central) e no Grande ABC.
Contato: 
alex@minutoterapia.com
Facebook.com/ominutoterapia

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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