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Resiliência: a arte de ser camaleão


Por: Jackeline Leal

Sim, nós estamos rodeados de modismos e de palavras que tentam resumir em “cachos de comportamentos padronizados” ações que por si mesmas, já são importantes e necessárias para uma vida mais saudável.

Sendo assim, para começo de conversa, compreender o significado da palavra resiliência e fazer um checklist de ações e reações pontuais que você pratica não garante que você seja uma pessoa e um profissional resilientes.

E para entender melhor este tema, eu escolhi utilizar como metáfora o nobre camaleão. Um bichinho de mais ou menos 60 centímetros que tem uma relação não muito amigável com os outros colegas de espécie, além de uma língua bem grande para conseguir se defender de outros animais e se alimentar.

Acredito que você ao ler o título do texto, rapidamente já tenha entendido o porquê da minha escolha. O camaleão é um dos animais que muda de cor quando é preciso se adaptar ao tempo e ao local em que vive. Ninguém melhor do que ele para nos exemplificar algo que também é necessário para nós, seres humanos.

Em nossa cultura, o camaleão é utilizado para descrever bons atores e ainda pessoas maleáveis que tem a possibilidade de alterar seu comportamento conforme as características do ambiente e, trazendo estas características para a nossa vida real, é exatamente assim que somos convidados a ser em nossas vidas, o tempo todo.

Ser resiliente significa ter a capacidade de circular por diversos meios, se relacionar com diversas pessoas e vivenciar diversas situações e está diretamente relacionado ao grau de maturidade em que estamos.

Segundo o autor Eduardo Ferreira (2013, pág 46) no livro Psicoterapia breve, “o grau de maturidade de um indivíduo pode ser avaliado por seu nível de aptidão plástica de adaptação, pela mobilidade e flexibilidade nas diversas solicitações a que foi submetido, com ou sem êxito, sem perder o rumo”.

Assim, eu posso lhes dizer que a capacidade de ser resiliente está intimamente conectada com a nossa maturidade e com a forma que escolhemos enfrentar os fatos que acontecem em nossas vidas e, ainda, que esta habilidade é adquirida com o tempo e não inata, imutável e constante. Está também intimamente ligada à capacidade de acumular experiências boas ou más e de se permitir a transformá-las em repertório e não em “traumas”, possibilitando-nos a agir de forma espontânea frente aos obstáculos.

Quando falo em espontaneidade, utilizo o conceito de Moreno, Pai do Psicodrama, como fonte de conhecimento. Para Moreno (1983), “a espontaneidade é a capacidade que o indivíduo tem de responder adequadamente à situação, seja ela algo já vivido ou algo novo.” Desta forma, podemos dizer que para conseguir agir de forma resiliente é preciso que estejamos com a nossa capacidade criativo-espontânea em perfeito funcionamento, ou seja, que estejamos emocionalmente preparados.

O desenvolvimento da competência resiliência se inicia, então, junto ao nosso nascimento e você pode identificar isso de forma bem fácil, principalmente se você tem filhos. E se você não os têm, como eu, experimente um olhar mais atento aos filhos dos outros (amigos, vizinhos, na pracinha…).

Quando os pais permitem que os filhos experimentem o mundo ao seu redor e que eles respondam de forma natural e espontânea aos possíveis “obstáculos” que possam aparecer no seu caminho, estão dando a eles repertório para a resiliência.

Permitir que a criança interaja com outras pessoas, reconheça o ambiente, caminhe descalço, se aventure, se divirta, se frustre, vivencie ser rejeitado, faça escolhas e se arrependa delas, seja punido por seus erros e elogiado por seus acertos, proporciona um leque de possibilidades de reações frente ao novo que ela não teria sem essa vivência na infância.

Adquirir estas habilidades dependerá, portanto, da interação social, da relação familiar, do ambiente cultural no qual estamos inseridos e dos estímulos que nos são dados no decorrer da vida. Ser um “pai” extremamente protetor, por exemplo, poderá limitar o desenvolvimento da espontaneidade do seu filho e limitar suas habilidades emocionais e é papel de quem cria suportar esta necessidade e prover um ambiente onde isso possa acontecer.

Agora, se você cresceu e lendo este texto está se dando conta do quanto você responde de maneira estereotipada (padronizada, esperada socialmente e talvez por isso pareça adequada, correta), frente aos obstáculos que você enfrenta na sua vida, mas sofre imensamente por dentro, naquele momento em que ninguém vê, expandir o seu repertório e desenvolver a sua espontaneidade é algo que você precisa fazer, e é pra ontem!

Mas e aí, é possível fazer isso depois de grande? A boa notícia é que é possível sim, e eu vou compartilhar com você uma maneira bem legal de te ajudar a fazer esse processo de desenvolvimento sozinho em cinco passos:

1) O primeiro passo é viver uma vida mais consciente.

Sair do Piloto Automático e sentir, processar e viver cada momento da sua vida de maneira presente. Para fazer isso você pode, por exemplo, começar a tomar contato com o que você escolhe comer no café da manhã, em qual caminho você prefere ir para o trabalho ou para a academia, qual o prato que você sempre escolhe no restaurante quando vai almoçar, assim por diante.

Repetir comportamentos funciona como um aparato de segurança, evita que você faça escolhas ruins, que possam gerar respostas que você não gostaria de ter, mas também limita a sua construção de repertórios. Ter atitudes que já estão programadas como se estivessem vivendo com o “Piloto Automático” ligado, nos ajuda a reduzir energia cerebral e a não ter que reaprender todos os dias a atividades básicas como escovar os dentes, pentear os cabelos, ir para o trabalho, andar de bicicleta e até mesmo regras de etiqueta como desejar um bom dia e dizer obrigada, mas também, faz com que não saiamos quase nunca deste padrão.

Isso é tão verdade, que quando você diz para alguém “Bom dia” pela manhã, geralmente espera que ele responda exatamente isso “Bom dia”, e se ele diz ao invés disto, “Não é um bom dia, eu não estou muito bem hoje”, é possível que você não saiba sequer o que responder, pois está fora do “script”, do esperado.

2) O segundo passo é começar a identificar as formas como você reage a cada situação e tentar ler nas entrelinhas os padrões de resposta que você tem.

Se eles são sempre os mesmos ou se eles mudam de acordo com a necessidade do momento, se você é ou não é um camaleão…

3) O terceiro passo é romper com a ideia que “te prende/limita” a responder sempre da mesma forma a determinadas situações, como por exemplo, sempre que algo não sai de acordo com as suas expectativas você se torna vítima do mundo, magoa-se com o outro e acha que não pode confiar em mais ninguém.

Para colocar em prática o passo 3, será preciso romper com velhas crenças, como as de que as coisas sempre irão acontecer do jeito que você quer e se libertar da “criança interior mimada” que você aprendeu a ser, que tinha tudo o que queria nas mãos, na hora que quisesse e partir para uma consciência mais madura onde aprendemos que a vida não é bem assim para ninguém e não somente para você.

4) O quarto passo é onde você identifica quais destes comportamentos não estão adequados com você, com a pessoa que você gostaria de estar sendo (esta análise pode, inclusive, ser feita de maneira individualizada, passando pelos diferentes papéis que você exerce como: esposa, filha, aluna, amiga, estudante, profissional, entre outros; e depois de maneira geral).

5) E por último, mas não menos importante, o quinto passo, onde toda a prática se traduz em aprendizado e você passa a agir de forma resiliente mesmo quando você não consegue administrar suas emoções, seus impulsos, seus sentimentos e acaba agindo de forma inadequada.

Após o quinto passo você, enfim, descobre que “Ser Resiliente” é treino constante como qualquer novo aprendizado na nossa vida.

Demanda erros e acertos, o eterno cair e levantar. É na verdade mais prática do que teoria.

Referências:

Ferreira-Santos, Eduardo. Psicoterapia breve: abordagem sistematizada de situações de crise. 5 Edição, revista e ampliada. São Paulo: Àgora, 2013.

MORENO, J. L. Fundamentos do Psicodrama. São Paulo: Summus, 1983;

https://pt.wikipedia.org/wiki/Resiliência_(psicologia)

Imagem capa: Pinterest

Colunista:

Jackeline Leal
CRP 16/1585

Psicóloga Clínica, Pós Graduanda em Psicodrama pelo IDH/RS,
Formada pela FAESA/ES, atende em Vitória/ES.
Jackeline também é Coach de Carreira e Negócios e conta com
mais de 10 anos de experiência em desenvolvimento de pessoas.
Contatos:
E-mail: contato@jackelineleal.com.br 

Facebook.com/jacklealpsicoach
www.jackelineleal.com.br

*Ao reproduzir este conteúdo, não se esqueça de citar as fontes.


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