Envelhecer…


Por: Adnaldo Cardoso

O século XX foi marcado por grandes desenvolvimentos tecnológicos nas mais diferentes áreas. Nas ciências biomédicas isso se refletiu em maior expectativa de vida das pessoas. Para alguns autores o século XXI será marcado pelo envelhecimento das populações.

Paradoxalmente, no momento em que a sociedade fica mais velha, o modelo de vida proposto é representado pela “juventude a qualquer preço”. A negação da velhice é constatada não somente na juventude ou na idade adulta, mas entre os próprios idosos. Isso faz com que muitos recorram a plásticas desnecessárias do corpo e, também, como afirma a cronista Eliane Brum, “às plásticas das palavras”. Ou seja, criamos palavras novas para adocicar a condição de ter vivido muito, de estar velho. Surgem palavras como idoso, terceira idade, melhor idade, maturidade, idade de ouro, etc.

Poderíamos dizer que tais tentativas são fruto de uma distorção na forma do homem contemporâneo lidar com o tempo e olhar a realidade. A psicóloga norte-americana Diane Papalia aconselha a não olhar a velhice “nem com óculos escuros, nem com óculos cor-de-rosa”. 

Como olhar a velhice sem distorções? Por que, às vezes, queremos negá-la? E por que ela é tão importante? O teórico alemão Erik Erikson talvez possa nos ajudar. Segundo o autor, ao longo da vida passamos por “crises” que, uma vez superadas, nos proporcionam maturidade e habilidades para um novo desenvolvimento. Na velhice a crise é representada pelo embate Integridade X Desespero. Quando o resultado desse confronto é negativo, a pessoa sente que o tempo é curto demais para mudanças e refazer aspectos de sua vida. Isso pode levar ao desespero, representado por depressão, hipocondria, negação da velhice ou isolamento. Ou as pessoas idosas adquirem um senso de integridade do ser – expresso pela aceitação da vida que tiveram e do que está por vir – ou se desesperam, porque a vida não poderá ser vivida novamente e o tempo se apresenta curto.

O idoso é convidado pelo tempo e pelos acontecimentos (perda do cônjuge, dos amigos, mudanças físicas, doenças) a avaliar a própria vida e a aceitá-la. Mas, sobretudo, a empreender esforços para que o viver seja coerente. Isto é, para as ações cotidianas estarem em sintonia com as suas crenças, seus valores, enfim, com a sua “missão” no mundo.

É justamente desse caminho de integridade e coerência, feito de aceitação, de erros e de acertos, que nasce a tão falada sabedoria. Ela não é dada simplesmente pelo número de anos de vida, mas pela vida vivida que se faz pela experiência pessoal de conhecimento de si mesmo e do mundo.

Nesse caminho de integração, é necessário desfazer-se de algumas coisas. Aceitar as mudanças do corpo, os pais que se teve, a família que se tem, as escolhas que fez… As diferentes dimensões humanas (física, psicológica, social e espiritual) se integram à medida que se avança por esse caminho rumo à sabedoria. A esse propósito, parece-me oportuno citar a bela poesia de Mário Quintana, Das Ilusões:
“Meu saco de ilusões, bem cheio tive-o. / Com ele ia subindo a ladeira da vida. / E, no entretanto, após cada ilusão perdida… / Que extraordinária sensação de alívio!”

A velhice é uma fase do desenvolvimento humano que pode nos conduzir a movimentos de maturação integral: um movimento interior que nos leva a rever a própria vida, aprender com ela e entrar em contato com o essencial, a essência do nosso ser. E um movimento exterior que nos leva a sentir que somos parte da humanidade, a fazer algo por ela, construindo um legado. Compreendemos, então, porque alguns autores definem o envelhecer como “envelheSer”!

>> Adnaldo Cardoso é terapeuta ocupacional, Mestre em Ciências da Reabilitação – Saúde do Idoso, titulado em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e membro do grupo de estudos Psicologia e Comunhão do Movimento dos Focolares.



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Sobre a autora:

Ane Caroline Janiro – Psicóloga clínica, idealizadora e editora do Psicologia Acessível.
CRP: 06/119556

Sobre o Psicologia Acessível (saiba mais aqui).

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